segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carla e a Cozinha




Num fim de semana chuvoso e sozinha, sem ânimo para ouvir música, afinal música é alento para alma e Carla não queria que a alma estivesse bem; sem vontade para ver filmes, porque filmes exigem atenção e Carla não queria nenhuma atividade intelectual; ela entrou em crise. Bom, sabemos que Carla passa todo o tempo em crise, mas crises, assim como amores, sempre são inéditas e mais intensas.
Carla não sabia o que fazer que lhe dava prazer (além de sexo), algo que pudesse em um hobby, uma distração, que fizesse por amor, degustasse de cada momento da produção e sentisse prazer com resultado final. Carla não tinha talento. E, não ter talento implica em não saber ao certo quem é. Isso gera um a carência intensa, Carla buscava nos amigos, no amor encontrar quem ela própria era. Buscava satisfazer sua necessidade de saber qual era seu dom, para que tinha vindo ao mundo na companhia dos outros, e sugar essa energia alheia não só afasta as pessoas como também se absorve energias negativas e torna os olhos amargos.
Um pouco mais e Carla nem acreditaria estar viva, a vida seria uma ilusão como matrix, algo criado, planejado e decidido. Aliás, Carla preferia acreditar que vivia em matrix, assim se eximia da responsabilidade de buscar seu dom, buscar sua felicidade e poderia se entregar plenamente à sua crise. A maior de todas as crises que já teve.
Felizmente para mim, como narrador, conheço Carla e sei que ela não se entregaria assim, passar por crises ela aceita, afinal é quando se depara com seus defeitos sem máscaras e toma atitude para melhorar.
Pensou em todas as coisas que já tinha feito e ficou degustando do prazer que sentira para tentar encontrar seu talento, porque Carla acreditava ter um talento. Na adolescência aprendeu a fazer crochê, achava fascinante observar as mulheres fazendo, conseguir formar imagem através de uma única agulha e um fio de linha, certamente era um dom. Até era, mas logo descobriu que não era seu, porque as imagens se formavam sim, mas de forma lenta e Carla não tinha muita paciência. Nesse mesmo embalo aprendeu vagonite e ponto cruz, gostou de ambos, mas não conseguiu ver utilidade para os panos que bordava, ainda hoje ela tem trilhos de mesa e guardanapos nunca usados entulhando seu guarda roupa.
Antes disso tinha descoberto o gosto pelos estudos, gostava de ler e estudar, isso até poderia ser um dom, mas para Carla era na verdade uma obrigação. Era a única coisa que podia fazer sem restrições, então era obrigada a gostar e aproveitava para ler e conhecer assuntos ocultos, proibidos, pecaminosos. Então não valia.
Lembrou das aulas de educação artística. De como era desesperador não conseguir formar figuras reais com traços como outras crianças, como era humilhante ouvir os risos debochados por apenas conseguir fazer composições sem sentidos. Talvez pudesse chamar de desenhos surreais, talvez fosse uma artista, mas não havia na época ninguém com capacidade de incentivar ou orientar Carla nesse sentido. Inclusive, hoje os deboches seriam chamados de bullying. Se esse era dom, tinha ficado no passado com certeza. Algumas vezes Carla gostava de pensar que saber admirar a arte dos outros, conhecer os traços seria um dom, era uma das maneiras que ela encontrava para não se deparar com a realidade: ainda não sabia seu verdadeiro talento.
Por um período curto Carla fez aulas de teclado, mas achava entediante copiar partituras, não conseguia distinguir um som mais longo de um mais curto, os dedos não eram tão ágeis quanto o pensamento e, para somar a isso o irmão dela sentia um prazer indescritível em rir e irritar quando ela estava ensaiando. Não por isso, esse não era seu dom, um dos principais sinais é que frequentemente esquecia o dia da aula e faltava, bom isso também poderia ser sinal de que Carla vive no mundo da lua e nunca sabia que dia da semana era.
Fez dança, jazz, pouco tempo, mas foi incrível, gostava de ensaiar até a exaustão, fazia alongamentos, mas não podia apresentar junto com o grupo porque dançar era pecado, então acabou sendo pressionada a não ensaiar com o grupo, só a fazer os passos em um cantinho, como iria ensaiar com o grupo todo e não apresentar, não fazia sentido. Mas dançar com certeza foi um dos melhores momentos que passou na infância/adolescência. Isso até poderia ser um dom, mas Carla pensava que dom era ainda mais, tomou nota de adicionar aulas de dança na sua agenda e continuou pensado.
A chuva caía, o céu cinza, veio a lembrança da tarde anterior, quando estava no centro da cidade e pode observar o contraste dos ipês roxo totalmente floridos, sem uma única folha, com o céu cinza. Era o sorriso do coringa, grande, escancarado, mas não refletia felicidade e sim loucura, agonia, tristeza.
Devaneios à parte Carla voltou à crise. Seu dom. Como gostava de estudar e ler, escrever bem era uma consequência, então haviam sempre incentivos para que escrevesse algo, um livro, um diário, um texto, uma carta, mais tarde um email... Ela gostava de escrever, gostava muito, mas não tinha a disciplina necessária, não tinha o foco necessário, começava com uma ideia, se perdia em devaneios, escrevia cinco ou seis páginas sem sentido algum com o objetivo inicial. Poderia ser seu dom, mas teria que ser trabalhado melhor. Sem dizer que começava infinitos textos e não terminava, que muitos dias tinha preguiça de escrever, então não poderia ser profissão, porque com profissão se tem metas e prazos. Tomou nota ainda assim que gostava de escrever e pensou em algo como contos, crônicas, um personagem pra viver sua vida de forma mais escancarada. Tomou nota e voltou à crise. Já estava difícil manter foco.
Lembrou do período que trabalhou como jardineira. Não, jardineira não porque se limitava a plantar, cortar, varrer e juntar grama. Lembrou que esse foi o serviço mais detestável que fez, porque calejava suas mãos e sujava seus pés. Mas Carla jamais reclamava, porque em tempos difíceis se faz o que é necessário e ainda agradece pela oportunidade.
Continuou buscando em sua vivência o que lhe tinha dado prazer, na ânsia de encontrar seu dom e principalmente na esperança de encontrar períodos felizes. Lembrou de quando trabalhou em uma padaria, era pequena, de interior, mas se sentia responsável, não era muito mais que uma criança, mas se sentia “gente grande”. Atendia, ajudava lavar a louça, fazer recheios de cuca, aprendia segredos de bolos, bolachas, algumas medidas, Carla conseguiu lembrar ainda na vida adulta. Foi uma experiência fabulosa. Se sentia bem naquele ambiente e com aquelas pessoas, ela não conseguiu lembrar o nome delas, algumas receitas lembrou, isso pode ser um indício. Gostou de lembrar que perdia tempo vendo a textura da massa, sentindo o cheiro do pão no forno e se distraía ouvindo o ploc ploc das panelas no fogo.
Carla percebeu que se esse não era seu dom, estava muito perto de ser. Cozinhar, fazer comidas mexia com todos os sentidos e com sua intelectualidade. Cozinhar não é colocar vários ingredientes em um recipiente e comer depois. É um trabalho químico que respeitando a ordem, temperatura, movimento se torna algo que pode ser degustado, saboreado, sentido, vivido.
Uma comida vai além de alimentar quando instiga os sentidos, começa com o visual, observação da textura, o odor e por fim o sabor, sabor esse que se torna melhor quando compartilhado. Mas antes disso tudo tem o preparo. Carla viu que poderia experimentar isso naquele momento. Não precisava divagar no passado e sentir novamente o prazer, poderia viver o prazer agora. Foi o que fez. Buscou entre as centenas de receitas que tinha encontrado na internet e planejava fazer algum dia algo que pudesse ser feito naquele momento.
Encontrou um bolo, mas sem batedeira teria que ser feito manualmente. Um trabalho artesanal seria bom. Bateu as claras até virar clara em neve. Deixou escapar um riso gostoso. Será que o processo de torna a clara nevada é o mesmo que faz o suflair ser aerado? Certamente nesse instante Carla estava fora de sua crise, porque essas curiosidades sem sentidos, mas extremamente criativas só surgiam em bons momentos. Resolveu colocar o dedo no ladinho para sentir a textura, lambeu o dedo, fez uma careta, o sabor não era bom, mas acompanhar todo o processo sim. Acrescentou as gemas, bateu vagarosamente para se deliciar com a mistura, as cores que surgiam e a nova textura. Experimentou novamente, continuava ruim. Acrescentou o açúcar e bateu lentamente para ver as mudanças. Experimentou. Estava bom. Foi acrescentando os demais ingredientes, um a um, muito lentamente, delirando com cada nova cor e textura que observava. Riu sozinha. Sentiu um desejo de passar para as demais pessoas esse prazer, essa sensação de gostosura que sentia no coração. No momento em que despejou a massa na forma e colocou assar, seu coração estava tão leve e flocado quanto a clara em neve.


Continua...

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