Quando o óculos ficou pronto sua mãe foi buscar trouxe numa caixinha com uma flanela para limpar, Carla colocou no rosto e sentiu uma estranheza, ao mesmo tempo que as coisas ficaram definidas, com formas bem marcadas, cores vivas, ela tinha a sensação de estar com os olhos sendo puxados do rosto.
Nesse caso ela preferiu optar pelo prazer de ver o mundo. O mundo tinha formas, tudo muito claro, bem definido, nenhum pouco parecido com os borrões que ela sempre via. O verde da grama sob a luz do sol foi a cena mais marcante, a grama parecia ter movimento, com penugens, detalhes que ela nunca tinha observado.
Levou um susto quando olhou para o rosto das pessoas e viu as feições, o olhar, o contorno do nariz, dos lábios; foi como descobrir o mundo, renascer. Uma emoção indescritível. Sentiu uma felicidade pura, gratuita de poder ver, era como pertencer a um mundo que ela não conhecia, tinha tanta coisa a descobrir a partir de então.
No primeiro dia de aula os colegas surpreenderam, não ficaram debochando, foram compadecidos, tiveram até um pouco de piedade, como se fosse um sacrifício usar algo que fazia se sentir melhor. Foi interessante descobrir que era fácil aprender quando se conseguia ler, ver, acompanhar visualmente a formação da ideia no livro. Descobriu que não era burra, era cega. Foi muito gostoso conhecer o prazer da leitura, conseguir ler os problemas matemáticos e formular um raciocínio lógico com os números. Descobriu que tinha afinidades com algumas matérias e era realmente medíocre para outras. Mas isso não incomodou, porque é algo natural.
Os adultos sempre falavam com piedade, coitada, como se acostuma a usar isso o dia todo. Ela não conseguia ver onde se enquadrava o coitada, mas para evitar maiores explicações vestia a máscara de coitada, concordava e continuava a desfrutar do seu novo mundo.
Passado os seis meses, quando deveria retornar para a próxima consulta, descobriu que haveria guerra para isso por causa do valor investido e apenas Carla tinha vantagem em manter rigor nas consultas e o óculos com o grau certo. Um valor subjetivo, inclusive, porque não tem como as pessoas verem seu mundo guerra assumida, porque ela pensava ter o direito de ver, aconteceu essa consulta e mais umas duas. Sua mãe resolveu pedir ao oftalmologista que aumentasse o tempo do retorno, ele sem preocupação nenhuma disse que poderia ser a cada ano.
Na próxima escolha de óculos, depois de trocar várias vezes apenas as lentes, a armação não se adequava mais ao rosto, que havia crescido, não parava mais sobre o nariz porque estava toda torta, o valor das armações tinham aumentado e sua mãe não queria comprar. Carla não era de insistir para ganhar nada, mas óculos, ela precisava, porque usava todos os dias, o dia todo. Insistiu, sua mãe recusou e ela argumentou: “pra você é fácil dizer que não precisa trocar, não é você que tem isso no rosto o dia todo”. A cara de desalento deve ter convencido, ela pôde trocar por uma armação de pouca qualidade que teve que ser substituída logo, por uma fornecida pelo SUS, que igualmente não resistiu um ano. A partir disso a qualidade aumentou um pouco, para valer a durabilidade.
O mais interessante de Carla usar óculos, além ver o mundo como realmente era, foi descobrir o poder mágico que ele tinha de deixá-la invisível. Na verdade não a deixava invisível ao mundo, porque ela era invisível ao mundo, mas quando ela tirava o óculos, deixava o mundo invisível à ela, era como se existisse no vácuo, com a percepção de lugar e tempo alterado. Com esse ato lhe foi concedido um poder que ela jamais imaginou que teria: poderia ser ela mesma, sem o medo de ser julgada, porque da mesma forma que era ignorada, poderia ignorar o mundo de forma consciente. Esse segredo Carla carrega com ela. Usa desse poder e usufrui dele constantemente. Ele minimiza o desespero que sentia por não se adequar a normalidade do mundo e tão pouco poderia não inserir o mundo em sua anormalidade.
E, apesar dos recursos disponíveis, Carla ainda usa óculos e não tem intenção de deixar de usar, porque gosta de ser alheia quando quer ser ela mesma.


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