segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carla e o amor - Parte 1




Carla tem um amor, estranho amor; calma não é o filme proibido da Xuxa, mas bem que poderia ser uma história proibida. É uma coisa meio não sabe. Não sabe se gosta, não sabe se ama ao mesmo tempo que gosta e ama. Então fica, mas é melhor ir, ele irrita ela, mas faz ela sentir-se bem.
Então Carla vive esse dilema, não por medo que ela é uma garota corajosa. É por não entender mesmo as coisas do coração. Talvez ela não tenha sido criada para amar e essas coisas, tenha sido educada para ser racional. Afinal na sua infância chorar era proibido, rir era coisa de bobo, fazer brincadeiras coisa de doente mental, felicidade era algo que não existia e sonho, era nada mais que ilusão, a única coisa importante era acumular poder monetário. Valores estranhos de se passar para criança.
Com dificuldade Carla foi se desvencilhando dessas amarras, mas alguns nós sempre ficam. Ela lembra com perfeição o dia que ganhou um par de patins usado. A vontade de sorrir era grande, todo o seu interior iluminou e com medo de explodir de alegria, puxou leve e disfarçadamente os cantos dos lábios num sorriso, logo voltou a natural postura com semblante, sei lá, talvez triste, sem expressão, olhos amargos. Mas por dentro a alegria era imensa. Bem verdade que andou poucas vezes, mas praticamente todas às vezes foram inesquecíveis. Mas que Carla colocava os patins e ficava imaginando que estava deslizando por ruas asfaltadas, indo para escola. Sonhava com o dia que poderia ir de patins para escola. Talvez as lembranças inesquecíveis das vezes que andou de patins nunca tenham realmente acontecido, talvez tenham acontecido somente no seu imaginário enquanto calçava. Até o chulé terrível ao tirar a bota de espuma era cheiro bom pra ela. Era cheiro de sonho realizado. Nunca vi um sonho tão fedorento. Estranho.
Breve relato para entender que se tratando de Carla o estranho e inimaginável é normal. Então ela ter um amor estranho era, lógico, esperado. Mas acrescento, ter um amor estranho era esperado, e dois? Claro, quanto mais improvável, mais esperado de Carla.
Embora que para mim como narrador acho muito mais interessante escrever sobre pessoas assim, estranhas, pessoas normais tem só coisas normais para contar, isso não tem graça, não atrai.
Enrolo e não conto dos amores de Carla.
Primeiro amor foi digital, à distância, mantido com carinho, cartas, emails, telefonemas, sonhos e idealizações. Estranho para uma adolescente de interior, cujas amigas frequentavam bailes para conhecer bom parceiros. Mas Carla se sentia especial, importante, tinha alguém que nutria por ela sentimentos bons, não ligava necessariamente para os olhos amargos, chorosos e cheios de lamentações, mesmo porque não os via. Tinha alguém que, por não ver essa parte ouvia a garota inteligente, humorada, brincalhona e cheia de sonhos. Tinha alguém que acreditava nela. Isso bastava para Carla Amar. Mas não era só isso, ela tinha alguém com quem poderia conversar horas sobre filmes, livros, cotidiano, rotina, alguém inteligente que sabia falar corretamente. Uma pessoa educada de valor, como não amar alguém inteligente, que sabe despertar o seu melhor?
Bem, era um amor assim que Carla tinha. Tinha mas não podia tocar, cheirar, beijar. O sentimento se desenvolveu reciprocamente e chegou o dia de se conhecer.
A ansiedade tomava conta do coração, ele que não se informara sobre a duração da viagem disse que chegaria cedo, então, ela que sempre se antecipa estava a sua espera antes de cedo. Mas ele chegaria tarde, e com o atraso do ônibus ele chegaria depois de tarde.
Enfim quando o coração pensava que não poderia mais aguentar o ônibus chegou, assim que ele surgiu na porta seu estômago borbulhou. Soube com certeza: era seu amor. Ansiosa por um encontro caloroso, saudoso com beijo quente e cinematográfico; recebeu um abraço tímido, meio sem jeito. Inconformada, pediu o beijo, que veio igualmente tímido.
Iniciaram as diferenças e a desconstrução da ideologia. Passaram poucos dias juntos, ela ansiosa para consumarem o amor fisicamente, ele extremamente tímido e amedrontado não tomou iniciativa. Carla sonhadora, cheia de planos para o futuro, ele romanticamente pensando num amor eterno. Ela querendo cursar a faculdade, ele levar a vida conforme a vida lhe levaria. Ela com gênio difícil, ele cabeça dura.
Ainda, algo em meio a isso insistia, era amor, só podia ser amor, estranho, mas ainda assim amor. Não tinha outra explicação para o sabor doce do beijo, para a sintonia e para a vontade de ficar juntos.
Na primeira partida a ausência criou dúvidas e o fim foi consequência.
Carla que não se apegava às coisas se entregou a amargura e solidão. Nunca confessou que doía e que tinha sido seu amor mais lindo, estranho, mas verdadeiro. Resolveu ansiar por outra experiência, dessa vez algo real e nada estranho.
Sem amigas Carla seguiu, e a primeira lembrança do seu próximo amor é coisa estranha, como não poderia deixar de ser. Num dia 31 de dezembro de um ano qualquer, ela voltava do trabalho desanimada porque passaria a virada de ano sozinha, veria os fogos sozinha e não teria ninguém para desejar feliz ano novo. Desanimada não seria a palavra correta, correto seria dizer envergonhada. Sim, Carla sentia vergonha de ser tão insignificante que ninguém lhe convidava para passar a virada. Pode parecer drama, porque é natural dessa data passar com a família, mas a família de Carla não era o que podia se chamar de normal no que tange datas comemorativas, era na verdade estranha. E ela alheia a isso desejava se enquadrar e comemorar normalmente determinadas datas, seguir determinados rituais. Voltando, sentia vergonha em não ter companhia, ninguém.
Embora que essa solidão, vergonha, não impediria de Carla admirar a beleza dos fogos, não impediria Carla de sair, ela poderia ser uma migalha de ser, mas agiria, jamais aceitaria essa condição sem antes lutar até a última força e tomar a última fluoxetina.
Bem, nesse 31 de dezembro Carla estava chegando em casa do serviço, com uma cara de dar pena no demônio, iria subir para sua kitinete e pensar em comer alguma coisa. Aliás, sozinha Carla não come, praticamente vive de luz, estranho. Naquele dia provavelmente não comeria nada. Provavelmente. Mas o provável não acontece.
Enquanto subia alguém mexeu com ela, não de forma desaforada, mas educadamente, chamando atenção, como não tinha nada a perder, nada mesmo, nem a vida, afinal essa existência ela não chamaria de vida, ela olhou. Um rapaz alto, olhos de mel muito bonito lhe ofereceu milho verde. Ela aceitou, ele pediu uma sacola plástica, ela foi buscar e superando as expectativas, ele descascou o milho. Esse foi um gesto que chamou a atenção. Quer dizer, foi uma gentileza e para Carla isso não era normal. Estranho.
O ano novo qualquer começou e nada de bom acontecia naturalmente, Carla sempre só, escondida por detrás de seus óculos, continuou existindo. Por meses não viu o lindo rapaz do milho verde, mas nem passava sobre isso, um lindo rapaz não se interessaria por ela.
Num belo e ensolarado dia, Carla provava um vestido de festa quando ouviu alguém bater na porta. Sem firulas foi abrir e adivinha?? Sim o estranho aconteceu. O rapaz estava lá, puxou assuntos banais, conversaram por algum tempo sobe trivialidades, ela de vestido de festa, salto alto, ele sem camisa e bermuda de taktel. Era enorme a discrepância. Mas isso não tinha importância, ambos gostavam de se comunicar e gostaram de se comunicar entre si. Se comunicaram mais algumas vezes, até resolverem sair.
O primeiro lugar que foram juntos foi numa piscina, Carla simplesmente amava água. E a paixão surgiu. O primeiro beijo foi quente, muito quente. E quando o amor aconteceu superou expectativas. Estranho, alguém superando expectativas duas vezes.
E, Carla gostou da sensação novamente de ser amada, importante, especial, única. Sensações estranhas à ela que normalmente se sentia inútil. Optou, em nome desse bem querer, ignorar sérios indícios de que o amor poderia ser trágico. Ele era tão maravilhoso que ligava para ela, ligava mesmo, não metaforicamente, ligava no seu celular numa época que só se ligava para celular em casos de morte, o custo da ligação era altíssimo. E como as coisas têm valores diferentes para cada pessoa, alguém ligar para Carla representava um valor muito grande para ela.
E foi!
A convivência foi boa, difícil para Carla é conseguir especificar o que foi mentira e o que foi verdade. Num belo e ensolarado dia ele partiu. Estranho. Partiu de forma definitiva. Coube mais uma vez a Carla voltar à companhia da solidão. Tornou-se insegura. Estranha. Deslocada. Como se não pertencesse a esse mundo. Talvez não pertencesse mesmo, mas estava aqui precisaria se adaptar a ele e às partidas.
Carla decidiu, contra todas as conspirações, que não desistiria da vida, não se entregaria à solidão e não se renderia ao grande desejo de se tornar vítima da história. Optou por viver sua existência.

 Continua...

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