quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Carla e o óculos - Parte I




Quando Carla era criança, as escolas do interior tinham um ensino menos rigoroso que o ensino da cidade grande (pelo menos era o que ela pensava) e ainda assim ela tinha muita dificuldade. Ao copiar do quadro se perdia entre meio as frases, sua letra era horrível e sua leitura patética. Ela pensava com frequência, como é que faria se vivesse em uma cidade grande e se conformava em ser do interior.
Numa dessas campanhas de governo que buscavam resolver problemas de saúde das crianças, foi feito um teste de visão. Carla errou. Errou muitos, a professora pediu para ela prestar atenção, insistiu para falar certo, olhar direito a letra que ela apontava. Carla se sentiu apavorada, porque não sabia como fazer para falar certo o que não conseguia distinguir. Com muita frustração a professora pediu para ela sair da sala e disse que conversariam depois. Quem nos primeiros anos escolares quer conversar depois com a professora, sentiu um frio, um medo ansioso.
Ao sair da sala as amigas contentes contando com sorriso em como tinham acertado todas as letras. Carla meio sem graça disse que não conseguiu ver e a reação das amigas foi a esperada: como não, as letras eram fáceis, tem que ser burra mesmo. O “tem que ser burra mesmo” pode não ter sido pronunciado, mas Carla certamente ouviu.
A professora chamou Carla para a temida conversa, explicou algumas coisas sobre encaminhar não sei o que ao posto para então encaminhar não sei onde para fazer sei lá o que e minha mãe teria que levar ela. A mãe levar Carla? Uma viagem especialmente à cidade para levar Carla a algum lugar? Isso custaria anos de reclamações, mas ela não tinha enxergado as letras. Droga, não poderia ter falado certo, mas como se não via.
O dia da tal marcação chegou, que na verdade nada mais era do que uma consulta pelo SUS com um oftalmologista, naquela época não era oftalmologista. Chegando ao consultório, ela logo reconheceu o fatídico cartaz. Enquanto ele fazia perguntas à sua mãe Carla fez um esforço em decorar as posições, afinal não queria ser burra novamente, não queria decepcionar novamente e, não queria ouvir a briga sobre óculos, novamente.
A briga sobre óculos: Carla chegou em casa com o papel para as devidas encaminhações e a mãe lhe disse eeee, vai ter que usar óculos. Carla comentou, a bem que eu gostaria, ia ser legal. Porque na sua concepção usar óculos representava uma inteligência peculiar, algo que ela era desprovida, um charme, uma beleza e até uma representação de sucesso. E a briga começou. É, você só pensa em gastar e gosta de estar doente, ir ao médico, nunca vi uma coisa dessas. Carla que não sabia ficar quieta, alterava o som da voz e respondia, assim seguia uma discussão inútil. Mas é claro que Carla se sentia culpada por ter desejos, gostos que custavam, mesmo que não gostava de ficar doente, não tinha culpa que sua cabeça doía, que não tinha conseguido ver as letras. Para conseguir se adequar ao esperado Carla decorou as letras, deu certo, não errou nenhuma e o oftalmologista disse que ela não tinha nada nos olhos.

Continua...
 

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