...E, para compensar o tédio da espera sentou em frente ao fogão, se deliciou com um Martini enquanto via o bolo crescer. Os quarenta minutos assando passaram tão rápidos que mal percebeu. Pensou então com um pouco de amargura, mas uma amargura abrandada pelo Martini, o que faria com um bolo tão grande sozinha, numa tarde chuvosa. Ignorou o pensamento e buscou uma nova receita. Não cogitou comer sozinha, para os que mal criadamente pensaram em responder.
Carla possuía uma infinidade de opções, mas lembrou dos ovos fritos com bacon do anime Castelo Animado. Nunca em toda sua medíocre existência tinha se permitido imitar a arte. Resolveu! Faria ovos com bacon, pena não ter o cálcifer para consumir as cascas dos ovos. Fatiou o bacon observando as gorduras, a carne em meio delas e a pele dura, sentiu o cheiro forte. Se questionou sobre quantas fatias seriam necessária para um infarto e ficou imaginando se aquele bacon seria de qualidade. Riu da ideia, costumava comprar o mais barato no mercado, certamente não seria o de mais qualidade. Quebrou os ovos com cuidado, gostava de como se sentia cuidadosa quando não rompia a membrana da gema ao quebrar, mas um rompeu, nem tão cuidadosa assim.
Sentiu um prazer jamais sentido pelos humanos normais em fazer ovos fritos. A maioria dos humanos fariam isso apenas porque estariam com fome e gostariam de algo rápido. Carla degustou esse pensamento, sentir feliz em coisas simples era um aprendizado que de crise em crise ela lembrava. Colocou os ovos e o bacon na frigideira e ficou observando a mágica da química. O calor do óleo fazendo a clara endurecer, deixando o amarelo da gema mais esbranquiçado, o bacon tostando, a carne ficando marronzinha e a gordura translúcida. A maneira como a gordura do bacon se misturava ao óleo passando um sabor peculiar aos ovos. Era uma verdadeira alquimia, tornar coisas insípidas em mais que alimento, tornar em um prazer saboroso.
Carla ficou imaginando se os obesos do mundo eram assim porque tinham descoberto o prazer da culinária, ou se apenas se empanturravam com comidas preparadas em série. Admirou os ovos com bacon postos na panela, pensou sobre o anime, gostou disso, então serviu-se e degustou do ovo como se fosse o primeiro da sua vida, como se tratasse de uma comida fina, com sensibilidade, provando o odor primeiro, o sabor depois. Como algo único provavelmente foi o primeiro que comeu com atenção, alimentando a alma e não apenas saciando o corpo.
Resolveu reviver as boas experiências com comida que tinha tido, lembrou de uma noite que seu pai cozinhara ovos, o dela estava com a gema meio mole, colocou um pouquinho de sal, comeu na própria casca, nunca mais encontrou aquele sabor dentro da casca de um ovo, provavelmente porque não teve mais ovos cozidos pelo seu pai.
Lembrou da primeira vez que fez brigadeiro, se sentiu tão feliz, tão grande, pegou uma panela esmaltada com detalhe de flores, despejou o leite condensado a margarina e o chocolate, tudo cuidadosamente medido. Pediu ao seu pai para ascender o fogo do fogareiro, ah sim, não cozinhou no fogão, isso era proibido para ela na casa de sua mãe, cozinhou nas pedrinhas da garagem com um fogareiro. Mexeu se imaginando na cozinha de um grande restaurante preparando um brigadeiro de sabor único. Ficou feliz por ter sua casa com seu fogão, onde poderia cozinhar e fazer sujeira sem medo, estabanada como era, difícil fazer algo sem derrubar ou bater alguma cosia.
Essa lembrança a levou ao dia que descobriu que fazer gelatina era fácil, nunca comia gelatina nem podia fazer porque fazia muita bagunça. Foi com uma queda de queixo ficou sabendo que a única coisa que sujava era um refratário e uma colher. Lembrou das vezes que aproveitava das saídas da sua mãe para escondido fazer imersões na cozinha e preparar coisas como bolinho de chuva, gelatina, musses.
Lembranças e mais lembranças, enquanto degustava do sabor do ovo. Resolveu que faria uma refeição completa para si no domingo, peixe ao leite de coco, arroz branco, maionese com ovo cru e farofa carioca.
Carla levantou cedo, muito empolgada com a nova descoberta colocou cozinhar batatinha e ovos, já mais inspirada intelectualmente colocou um filme no DVD e relaxou sentindo um prazer singular.
Empanou os peixes conforme a receita, acrescentou ao seu gosto algumas ervas, cobriu com o leite de coco e colocou assar. Preparou o arroz, ficou em frente ao fogão sentindo o cheiro e ouvindo o som do líquido cozinhando. Se distraiu com o vapor que saia da panela, procurando imagens como algumas vezes faz com as nuvens. Serviu o Martini, se sentiu feliz como nunca e esperou o calor transformar as comidas em alimentos para a alma.
Arrumou a mesa com elegância, colocou toalha branca de renda, usou o que aprendeu sobre etiqueta para dispor o prato e os talheres, dispensou o copo porque não bebe enquanto come. Serviu seu prato de maneira elegante e ficou admirando enquanto esfriava, Carla gosta de comida fria, no máximo morna. Degustou, se embriagou com os sabores, sentiu uma felicidade nova na alma, com essa descoberta tinha garantido pelo menos uma semana sem crise existencial durante sua rotina.
Não se sentiu só naquele dia, mas desejou compartilhar o mesmo prazer com alguém, mas concluiu que dificilmente alguém sentiria o mesmo sabor que ela em ovos fritos com bacon.

Eiata alimentação saudável. Mas parece que Carla fez da culinária não apenas um dom, mas um modo de meditação.
ResponderExcluirAinda bem q Carla tem só as doenças q eu quiser q ela tenha, sou o Deus dela. Gostei dessa conclusão, talvez para Lúcifer tivesse sido melhor criar um personagem do q contestar as leis de Deus......
ResponderExcluirKKKKKKKKKK....
ResponderExcluirLeia COMA BOLO!
Vc e a autora tem muitas coisas em comum além da sensibilidade e e delicadesa ao relacionar momentos, desejos, gostos, enfim PECULIARIDADES muito individuais dentro de um simples ato do preparar a refeição e levar a colher à boca.
ADOREI!!!
PS...
ResponderExcluirsOU O cÉSAR SEM ENTENDER O POR QUE MINHA COTNA DO MSN ESTÁ LIGADA A ESSE BLOG JÁ PERDIDO DO INFERNO!!!