terça-feira, 24 de maio de 2011

Uma Reflexão de Fernando Pessoa

Refletindo sobre o mundo, sobre humanidade, vida, filhos, história, natureza e pensando em como escrever sobre tudo sem me perder em idéias, e até com um pouco de medo de me perder em meu mundo e não conseguir mais encontrar o caminho para a realidade, encontrei um poema do Fernando Pessoa. Que me fez lembrar do dia que esperava a circular no ponto da escola dos meus pequenos e vi as nuvens.  Não pareciam algodão, não pareciam doce, pareciam aquarela, pintadas pelas mãos experientes de algum pintor e técnica que fiquei instigada a conhecer.  Lamentei profundamente não estar com a máquina fotográfica, lamentei mais ainda não ser poeta para poder criar um poema para aquele momento e aquelas nuvens. Então, me desliguei de todas as preocupações e foquei unicamente as nuvens e as sensações que elas me causavam, por momentos (pequenos) negligenciei olhar aos meus filhos, para poder simplesmente eternizar aquela imagem que com o passar dos minutos começou a rosear com o pôr do sol. Infelizmente sei que esquecerei e que nunca conseguirei transmití-la ou recriá-la. Então lendo um pouco de Fernando Pessoa entendi que o que vale, não é entender, compartilhar ou explicar, mas sim vivenciar esse momento único e ter essa sensação. Mas especialmente, não porque as nuvens pareciam pintura, mas sim porque são nuvens e porque cada uma tem beleza especial e pode me propiciar essa sensação novamente, basta olhar para elas com os mesmos olhos que olhei para as outras.




O Meu Olhar

 (Fernando Pessoa)

Guardador de Rebanhos
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

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