Hoje senti saudade de um tempo que não vivi. Pelo menos não vivi no papel que gostaria de ter vivido. Senti saudade de ser mulher; não feminista, empresária, independente, dona do meu nariz. Senti saudade de ser mulher, mãe, dona de casa. Pode ser incoerente nos tempos atuais uma mulher querer ser apenas mãe e dona de casa considerando infinitas alternativas. Li outro dia num blog um questionamento a respeito de quem foi a mulher que teve a infeliz ideia de lutar por direitos iguais em relação aos homens. Isso valeu uma reflexão de vários dias. E especialmente nesses últimos dias esse pensamento me veio à tona com tal intensidade que valeu escrever sobre o tema.
Na verdade, a mulher da atualidade, e de classe baixa como eu, nunca deixou de ser dona de casa. Ainda lava, passa, cozinha, limpa; com a ajuda do marido; sim, mas se ele trabalha mais, ele ajuda menos. Ainda é mãe dedica, amamenta, troca fraldas, pleiteia vaga em creche, dá banho, leva ao médico, ensina a usar o banheiro, escovar os dentes, conta histórias e não caberiam aqui todas as atividades de mãe; com a presença e auxílio efetivo do pai, no meu caso. E acreditem, essas duas atividades somadas ao trabalho de fazer mercado, uma atividade física, cuidar com mais atenção da própria saúde, ocupa todas as horas de todos os dias da semana.
Agora agregue a tudo isso, porque a maioria das mulheres tem que conciliar, uma carga horária de trabalho formal de 40h semanais. Sim, isso desestrutura toda nossa vida. Nos deixa fora da ordem natural das coisas. Porque se estou oito horas por dia no meu emprego, não estou fazendo as atividades citadas e principalmente, não estou cuidando dos meus filhos. Dois. Menino, 6 anos, TDAH predominante desatendo. Menina, 3 anos, TDAH predominante hiperativa com agravante de transtorno desafiante opositor. Período matutino, uma senhora cuida, com amor, é bem verdade, mas sem a autoridade que o caso necessita. Período vespertino, escola pública, com o acompanhamento necessário. Mas com horário que não condiz com o meu horário de trabalho, e ainda mais longe de adequar ao horário de trabalho do pai.
Na escola aquela pressão, você não conhece uma criança maiorzinha que eles podem ir embora juntos no fim da tarde... O quê???? Deixar meus filhos irem caminhando para casa, numa avenida que não tem calçada em toda a extensão, cuja velocidade é de 60Km/h com uma criança maiorzinha e sem um adulto responsável para acompanhar??? Isso me soou meio loucura, ou completo descaso com a integridade deles. Outra sugestão: contrata uma Táta para buscar eles até você chegar em casa. As pessoas não acreditam, mas trabalho porque preciso ajudar arcar as despesas de casa, já pago uma Táta para cuidar pela manhã, não tenho condições de pagar outra, ou mais um pouco para a mesma por causa de 15 min. Então pensei numa solução razoável: conversar com o superior imediato e pedir uma alteração de 15 min no meu horário: faço 15 minutos a mais no período da manhã para sair 15 minutos mais cedo no período da tarde. Ele nem fez questão de ouvir as minhas justificativas, disse que a filha dele estudava em escola pública e lá tem alguém pra cuidar, que bom pra ele, porque na escola dos meus filhos não tem. De qualquer forma fiz o protocolo e deixei rolar, está pendente ainda, conversei na secretaria de recursos humanos, pelo menos essa secretaria fez juz ao nome, me ouviram, sei que nesse caso se for indeferido, pelo menos foi cogitado a possibilidade e pensado na melhor solução para a administração e para mim.
Diante dessa situação pensei, perfeito mesmo seria como na época em que eu era criança: onde um responsável trabalhava e recebia o suficiente para o sustento da casa, o outro era responsável pelo bom andamento dela, educação das crianças, encaminhar eles para uma atividade extra. Um trabalho em equipe. Aqui, vale lembrar que normalmente o homem provia os recursos financeiros e a mulher organizava a casa, mas essa não precisa ser a única opção. Gostaria de ter condições nesse momento de parar de trabalhar para poder cuidar bem da casa, e dar o respaldo necessário às crianças. Ou ter um salário que fosse suficiente para que o pai ficasse responsável por essas questões. Como nenhum dos casos acontece, vou levando minhas funções: doméstica (adoraria terceirizar), mãe (adoraria ser integralmente) e trabalhadora. Mas como mera humana, não faço com total eficiência nenhuma delas, frequentemente preciso me ausentar da função de trabalhadora, porque a função de mãe exige acompanhamento e, isso nem sempre é compreendido. Enquanto atuo em todas as frentes observo que é quase um pecado mortal uma mulher dizer que gostaria de ser mãe e dona de casa. É como se fosse uma traição à raça feminina. Tudo bem, não são funções remuneradas, não se você atuar na sua casa, porque se atuar na casa dos outros, ou seja, for a dona de casa alheia, a cuidadora dos filhos alheios, é remunerado, não como deveria, mas é. Agora se você for a cuidadora dos seus filhos a dona de casa da sua casa, não é remunerado, mas não menos digno. Penso que é excelente poder educar seus filhos, ensinar os limites, as regras da casa, a necessidade de adaptação para o convívio social conforme os conceitos de certo e errado seus e principalmente passar seus valores. Mas, essa não é minha realidade, então preciso me conformar que pelo período da manhã quem manda em casa é minha menina, 3 anos, que no período vespertino eles tem a educação formal necessárias às crianças e por um curto período eu, como mãe, e o pai ensinamos o que pensamos ser o melhor caminho para eles viverem em sociedade. Mas ainda me pergunto, por que foi mesmo que foram queimados os sutiãs??? Por que foi que se exigiu direitos iguais??? Iguais a quê se os gêneros são totalmente diferentes.
Devo lembrar que nem todas as mulheres são como eu, tiveram filhos nova, e com planejamento não tão eficientes. Existem mulheres que planejam uma carreira e conseguem manter, depois da carreira estruturada planejam os filhos e têm a estrutura da terceirização necessária: doméstica, babá... Isso provavelmente ocorre após aos 30 anos, quando o corpo já não está na melhor idade para a maternidade, mas ainda se pode considerar um bom período. Bem, ótimo, consegue se ter a carreira dos sonhos, e engravidar, se a gravidez ocorrer bem, ainda se mantém o trabalho por mais um tempo, caso contrário, já iniciam as dificuldades, atestados, pressões. Depois disso, qualquer mãe que se preze deseja acompanhar o filho nas consultas mensais, quem já é mãe sabe que até completar uma certa idade, em média os 3 anos, as crianças tem resfriado, bronquite, alergia, otite, catapora, febre sem nenhum motivo aparente, e tudo isso exige cuidado integral, lá se vão mais dias da promissora carreira. Depois desse período, qualquer profissional está defasado. Ou não se dedicou ao trabalho e é necessário aperfeiçoamento, ou delegou muito cuidado importante dos filhos a terceiros. Lembro que existe o marido que pode ajudar, acompanhar em consultas, dar remédio, colocar dormir. Mas com toda a sinceridade, qual é a mãe que vai querer ser lembrada pelos filhos por ter mantido uma excelente carreira enquanto eles eram crianças, diferente da maioria das mulheres que acabam deixando isso de lado, ao invés de ser lembrada por ter colocado o filho no colo aconchegante enquanto esperava o remédio fazer efeito, melhorar a otite e o filho conseguir dormir? Esses questionamentos seriam interessantes em um debate, com opiniões diversas. Assim poderia ter outros pontos de vista a respeito da maternidade contemporânea e como tentar ser mais feliz como profissional e menos mãe.

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