Quando alguém diz “preciso falar com você” com certeza não vai falar coisa boa, se não só falaria. Então da última vez que ouvi essas palavras, elas ecoaram no meu ouvido e em segundos meu corpo estava diferente, o estômago contraído como se houvesse levado um soco, a visão meio potencializada, os sons mais vagarosos e graves. A próxima coisa que ouvi foi: Jaque, eu resolvi voltar para SP. Estremeci e sem saber como reagir, não reagi. Quis fugir, quis sumir, quis que minha vida fosse perfeita como é no meu imaginário. Mas a realidade é outra, e é conseqüência dos nossos atos.
Apesar de minha única vontade ser, naquele momento, deixar de existir, tentei manter a razão para entender, compreender que no amor as coisas são assim e algumas vezes partir é necessário. A razão entende perfeitamente. Mas a emoção quer se jogar no chão e chorar, ficar ali até definhar e sumir. Chorar eu chorei, como boa chorona que sou, chorei a tarde inteira na verdade. Vivi todas as situações que se vive no momento de dor: a incredulidade total, a negação, raiva, aceitação, negação de novo, vontade de desaparecer, inconformismo da escolhas erradas, mais raiva, medo, medo e medo. O medo merece comentário especial, medo da solidão, medo de ficar só, medo de não conseguir fazer tudo que era feito por ele para me ajudar, medo de não conseguir pagar as contas, mas principalmente medo de sofrer, de sofrer de novo. Teve também a culpa, a culpa por permitir uma aproximação, que nesse caso causa sofrimento a terceiros, envolvidos inocentemente na história. Mas como é impossível saber se terá sucesso sem tentar, então jogar é necessário, perder também faz parte do jogo, isso é preciso aceitar. Mesmo que nem sempre seja justo.
Depois do comunicado foram os dias em que ele esteve mais perto de ser o marido que eu esperava e muito provavelmente foram também os dias que mais me aproximei de ser a esposa que ele queria. Mas quando um rompimento é iminente, não há mais o que ser dito, a decisão está tomada. Ainda assim não sabia ao certo como me sentir, oscilava entre raiva e aceitação. Com algumas lágrimas, claro. E, então a partida.
O “pós ida” pensei que seria dolorido, solitário e que teria que me adaptar aos poucos. Foi com grande estranheza que percebi que estar só não significa estar solitário e que o inverso também é verdade. Foi então que descobri que é melhor a certeza de que ninguém vai chegar do que a ansiedade de não saber a que horas isso vai acontecer. Foi então que descobri que sair sozinha para caminhar é muito melhor quando não se tem companhia, do que sair sozinha porque quem deveria te acompanhar não quis ir. Descobri que tomar chocolate quente sozinha quando se é sozinha, tem sabor mais doce do que chocolate quente estando só podendo estar acompanhada. Descobri prazer em pedalar com as crianças, percebi que os filmes ficam com a mesma cor, a programação da televisão é a mesma e que os sonhos continuam.
Descobri em mim uma maturidade inesperada, um prazer em ter vivências inéditas. Um prazer em ter MINHAS vivências. Nessa nova maturidade recém descoberta encontrei o prazer de ficar só. O prazer de não ser solitária. Isso é algo bastante interessante para quem já viveu a intensidade da solidão tendo companhia. E agora busco com uma certa ansiedade as vivências que me eram permitidas mas nunca aproveitadas.
É certo que toda essa reflexão não me deixa mais próxima de saber que sou e qual meu papel no mundo, mas me faz perceber que mesmo não sabendo muito bem quem sou, nem qual a função da minha existência, posso estar feliz. Acabo percebendo que essa busca é muito interessante, talvez mais do que a própria descoberta.
E tudo isso acontece depois da decisão de outra pessoa.
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