quinta-feira, 28 de julho de 2011

Ensaio Sobre a Cegueira




Vi a adaptação para o cinema dessa obra ímpar. Fiquei instigada a ler o livro.
Mas num apanhado geral, porque assistindo uma vez o filme é praticamente impossível assimilar todas as reflexões que ele incita, achei uma metáfora muito interessante.
Privar toda a humanidade de um sentido tão importante quanto a visão é uma ideia inteligente a se explorar e Saramago faz isso com maestria. A composição dos personagens, o fato de não usar nome próprios de me leva a imaginar que cada um deles representa um grupo da sociedade: a dona de casa enfadada com os afazeres domésticos, sem iniciativa que se depara com uma situação de extremo poder e opta pela sensatez; o médico que tenta manter o comportamento ético e moral incentivando a organização dessa fora; a prostituta que desperta o seu lado maternal para cuidar do menino; o “rei” desperta seu lado cruel para ter o poder; o casal oriental, onde a mulher por claramente ser vaidosa tem um impacto maior que os outros com a perda, enquanto o marido tenta reanimá-la fazendo lembrar de bons momentos e ela se recusa porque se entrega totalmente a “desgraça”.
A maneira desesperada como cada um tenta manter os seus valores e como coisas simples como tomar banho, usar o banheiro fazem com que mais que a visão, aos poucos percam também a dignidade. Inseridos num hospício abandonado, sem recursos, com apenas a mulher do médico podendo ver, mas simulando estar cega também passam a viver com recursos limitados. A passagem de tempo é representada pelos detritos e sujeiras acumuladas no corredor, exemplificando também como o espírito dos cegos ficava.


A violência, o abuso sexual só retratavam ainda mais a pobreza de espírito da humanidade. Não costumo ser pessimista, mas é isso que vejo na humanidade, pobreza de espírito, dependência de um “ter” medíocre e temporário e quando se depara com uma situação extrema exterioriza o que tem de mais monstruoso e nojento. Me incluo totalmente nessa “humanidade”, normalmente em situações desesperadoras eu não tenho reações, fico imaginando que numa vivência dessas eu seria aquela inútil que não tem uma ideia interessante para sugerir. E, em nenhuma hipótese abriria mão de um conforto dos meus filhos pelo bem da humanidade. Não consigo ser altruísta, o que me conforma nessa conclusão é que ainda sou uma lagarta a caminho de ser borboleta e consigo ver as mudanças comportamentais como algo natural decorrente do amadurecimento, então nem tudo está perdido, mesmo para mim, mesmo para a humanidade.
Acho que essa foi a sensação ao sair do sanatório e perceber que não haviam guardas: que nem tudo estava perdido, poderiam se adaptar e voltar a viver, cegos, mas ainda assim, viver. Ou melhor, justamente por estar cegos conseguir ter outros valores e então, somente então começar a viver, cada um tinha uma existência, uma história, uma rotina e agora cada passo, mesmo que fosse dentro da rotina seria vivido com outra emoção. Uma das essências da humanidade é não ficar passível diante das calamidades e se adaptar.
Sem rumo o médico convida os companheiros para ficarem na casa dele até conseguirem se organizar, nessa ocasião há a analogia das laranjas estragadas com a alma dos personagens que foi algo interessante para mim, porque é realmente em momentos extremos que nos permitimos ver toda nossa “sujeira”, maldade, incompetência, enfim, nossos defeitos de uma maneira escancarada e que conseguimos ter força para melhorar, enquanto vivemos escondidos por de trás de máscaras mal feitas de bonzinhos nos mantemos estáticos e é preciso coragem para admitir que se tem “alma mofa”.
Por fim, quando a visão retorna ao que ficou cego por primeiro, deixa entender que voltara à todos na mesma ordem, trazendo esperança a eles. Isso nos força a refletir que realmente o ser humano espera sempre algo melhor, mesmo que não faça nada para isso. Acho que é um instinto inato que ajuda na manutenção da espécie.  Natural que após uma vivência assim as pessoas mudem e, natural também o desalento da mulher do médico que foi privada da cegueira e vivenciou visualmente a degradação, enquanto os demais reconstruíam e tinham as experiências no âmbito sensorial, ela viveu visualmente a dor, a imundice, a insignificância do ser humano. Então, quando a visão retornou, ela sentiu que cegava, pois não tinha compartilhado do crescimento moral dos demais.


4 comentários:

  1. Interessante,para uma primeira reflexão voce passou bem a idéia geral do filme. O ser humano sempre reage acima das mascaras quando são expostos a situações extremas. As reação tenderam sempre para o lado negativo,pois como você disse as nossas almas ainda são mofadas e não trabalhamos ela no dia a dia.
    Gostei da sua crítica.

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  2. Mofadas sim, mas todos em processo de evolução, uns bem avançados outros nem tanto, mas todos estão a caminho, um dia todos seremos seres melhores e consequentemente o mundo será melhor.

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  3. uau! adorei! nunca tinha lido, nem assistido, e o pessoal me falava sobre a história, mas nunca tão bem aprofundado como você explica. Gostei muito Jaque.

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  4. Lidi, esse é um filme q vale assitir, um livro q vale ler, pq é atemporal e é uma metáfora excelente, eu quero rever, poderíamos combinar um dia pra vermos juntas, acho q daria uma discussão excelente, acompanhada de um vinhos seria perfeita, fica o convite.

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