sexta-feira, 22 de julho de 2011

Carla e as Sensações



Carla nasceu e cresceu no interior, foi criada por uma família religiosa que impregnou nela verdades inquestionáveis, histórias pavorosas de como através do pecado se vai ao inferno e como lá é horrível. Caçula de uma família de quatro irmãos não conseguia perceber a verdadeira razão da sua existência, então para ser amada tentou ser perfeita, quando essa perfeição ia totalmente em direção oposta ao seu instinto. Tentou ser religiosa, teve medo do inferno e cansou da frustração, resolveu para não decepcionar o esperado e conquistar o tão desejado amor e admiração dos que ela amava, criar uma falsa Carla, a que ela usava a maior parte do tempo. E tinha preconceitos que estavam no seu íntimo, eram muitos e alguns comportamentos exageradamente corretos.
Ela abominava o cigarro, ficava rabugenta perto de um fumante e reclamava o tempo todo questionando com um certo orgulho como as pessoas se permitiam serem escravizadas pelo vício. Atravessava na faixa, não jogava papel no chão, mastigava chiclete sem açúcar, dormia cedo, evitava bebida alcoólica, baladas, enfim cometer qualquer transgressão. No fundo tudo isso representava uma única coisa: Carla era insegura. Além disso, não sabia exatamente quem era, tinha medo de não conseguir arcar com as consequências, então tentava ser o mais correta possível para ter apenas louros.
Aos poucos ela foi descobrindo que o mundo não ama mais ou menos alguém porque se é correto ou não, na verdade o mundo não ama ninguém, suporta apenas. Claro que foram descobertas doloridas consequência de muitas histórias. Que serão contadas uma a uma sem respeitar ordem cronológica.omens
A humanidade, acreditar no seu futuro ou desacreditar era uma coisa que Carla adorava pensar, julgar intimamente o comportamento dos outros, tinha certeza que na mesma proporção era julgada, então observava e tentava imaginar quais eram as vivências das pessoas que ela apenas via. Algumas despertavam simpatia e outras aversão sem motivo nenhum. Não exteriorizava esses pensamentos, mas permitia que fluíssem livremente. Andava de lotação praticamente todos os dias e em lotações se tem uma infinidade de personagens. Gostava especialmente de sentir os odores, tentar distinguir um do outro. Como achava perfeito a lotação para esses devaneios, muitas foram as vezes que dispersa em pensamentos não desceu no ponto correto.
Numa quinta feira exaustiva quando uma pontada de dor de cabeça anunciava a entrega do corpo para a correria pegou a lotação lotada, chega a ser uma cacofonia, mas em horário de pico lotação é todo “caco” existente, não há porque se preocupar especialmente com o som. Ficou em pé no corredor e foi muito rápido sentir um cheiro enjoativo de perfume ruim. Com consciência de que bom é ruim são critérios relativos, tentou buscar justificativa para o odor: uma pessoa limpa, banho recente ou simplesmente preferência. A dor foi acentuando por causa do cheiro, tentou controlar o instinto e preconceito. Aproveitou que pessoas desceram e procurou um banco. O cheiro persistia, podia notar claramente, era mistura de perfume ruim (lembrando do critério) e sabonete, logo a esse odor juntou um leve odor azedo que lembrou vomitado. A dor intermitente denunciava que essa mistura não era positiva, escutou um bebê resmungar, deduziu que o cheiro azedo provavelmente se tratava de refluxo do bebê, mães de bebês com refluxo cheiram leite azedo mesmo logo depois do banho, coisa incrível. Mães são coisas incríveis.




Positiva Carla esperava que isso melhorasse, três pontos antes de descer, um homem entrou, fez algum comentário ao motorista, o que foi comentado não tem importância, a voz máscula é que instigou os instintos e fez ela mudar o foco, uma distração seria boa num momento em que a cabeça anunciava claramente uma enxaqueca terrível. Poucos segundos após ouvir a voz sentiu o perfume do rapaz, um odor igualmente másculo, que como bom e ruim, também é relativo, mas para especificar, perfume masculino com notas amadeiradas; poderia complementar o másculo com sensual. Resolveu se embriagar do odor, encher as narinas de maneira que ignorasse por completo os odores sentidos até então. Inspirou profundamente enquanto o rapaz se aproximava e intensificava a essência. Foi com surpresa que sentiu a mistura do perfume, misterioso, másculo, sensual com cigarro. De início uma pequena frustração tentou surgir, mas surpresa maior foi sentir prazer com a mistura. Cigarro??? Um cheiro que causava tanto asco. Um arrepiou sensual, um desejo estranho, sensações inexplicáveis e pensamentos em velocidade da luz surgiram, quis guardar fundo na memória a experiência. Deu sinal, desceu e só então percebeu que não olhou para o rapaz. Tinha Agora uma lembrança “odorística” sem face e sem explicações.
Nesse momento percebeu que não seria mais a mesma. Jamais sentiria cheiro de cigarro com repulsa. Foi com naturalidade que na próxima oportunidade que se aproximou de um fumante inspirou profundamente para que a lembrança da fumaça fizesse a lembrança da experiência aflorar. Sentiu uma leve vontade de fumar.





Como não faço apologia ao fumo, Carla é quem teve uma experiência interessante, segue uma advertência:

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