terça-feira, 7 de junho de 2011

O Julgamento

A triste notícia de um bebê encontrado morto num saco de lixo na nossa elitizada cidade chocou. Pelo menos chocou a mim e mereceu uma reflexão. Minha alma ficou enlutada pelo possível sofrimento do bebê. É sabido que o nascimento causa dores aos bebês, que saem de um lugar quente, úmido, protegido, por um canal estreito, para um mundo nada fácil de viver. Todas essas adversidades já justificam o cuidado especial que se tem com um bebê. Então, quando esse cuidado não ocorre e, em contra partida, há o abandono, acrescido de morte, que no caso não se sabe se aconteceu antes ou após, nos causa choque, horror, repulsa, indignação e automaticamente o julgamento. Eu também julguei antes de refletir, mas quero convidar vocês a uma reflexão mais profunda, descer do pedestal de dignidade e caráter que nos levam a pensar que “comigo isso não aconteceria” ou “se acontecesse eu agiria diferente, jamais seria capaz de uma crueldade dessas” e pensar nos vários pontos, no outro lado da história.
Mas primeiro quero salientar que não concordo com o ocorrido, nada do que direi justifica o fato, apenas quero nos tirar de posição de Deus, e nos colocar no lugar de humanos cujo mandamento é amar ao próximo, mesmo que ele não seja tão amável assim, porque é justamente aí que está o valor.
Não sabemos em que condições ocorreu a gravidez, pode ter sido fruto de estupro, de desinformação, de pura negligência, sei lá, muitas possibilidades. Não sabemos a idade da mãe, que pode ser desde uma adolescente que nem sabia ao certo o que estava acontecendo a uma mulher adulta. Não sabemos como é a família dela, se é que tem família. Não sabemos quem era e quais as condições do pai da criança. Só essas incertezas já seriam o suficiente para que nos chocássemos com a situação, mas não julgássemos a mulher. Não sabemos nada a seu respeito.
Mas, nós deuses, donos da verdade absoluta e de uma conduta irrepreensível, podemos julgar, porque, se acontecesse “comigo” agiria diferente. Será?
Quem nunca criticou alguém que roubou para comer: “era só pedir”. Eu pergunto, quantas vezes você teve que pedir para poder comer?
Quem nunca julgou um dependente químico dizendo que “esses drogados” deveriam morrer mesmo. Ou achou que um roubo para comprar drogas era a coisa mais absurda do mundo. Pergunto, já foi dependente? Já passou pela fissura que a falta da droga causa e não teve dinheiro para usar?
Pergunto: já foi negro, pobre, gordo, homossexual, deficiente, mutante ou sei lá que outra minoria?
Como julgar se nunca pertenceu ao meio, não viveu na carne as dores que pertencer a alguma minoria pode causar. Não enfrentou o preconceito.
Estou só levantando pontos para reflexões.
Vendo a mãe como um ser humano, uma pessoa com aflições, medos, angústias, porque é isso que ela é. Vamos por pré supostos, se teve condições de abandonar, é porque escondeu a gravidez. Não sei quantos meses (vi a foto do bebê, era grande e bem formado) mentindo, omitindo, sofrendo numa situação em que se quer carinho, atenção, cuidados.
Se pôde abandonar com placenta e tudo, é porque não foi a um hospital, não teve ninguém ajudando, foi um parto normal, muito provavelmente sozinha. Quem teve contrações de parto pode imaginar o que ela passou sozinha para dar a luz a um bebê. Porque mesmo tendo assistência, não é nada fácil e é muito doloroso. O bebê já pode ter nascido morto (quero muito acreditar nisso, porque sufocar um bebê em um saco de lixo é mais do que poderia não julgar). Pode não ter nascido morto...
As possibilidades de ela ter pedido ajuda seriam muitas, com certeza, mas quantas pessoas realmente ajudam sem criticar, simplesmente ajudam e acolhem? Será que todas as milhares de pessoas apontam e a condenam antes mesmo de julgar seriam revertidas em mãos estendidas caso ela tivesse pedido? Você ajudaria? Antes de simplesmente responder que sim, pense, quantas pessoas você já ajudou hoje?
Na minha opinião, ela não precisa do nosso julgamento, sua própria consciência fará isso no decorrer da vida, e com certeza ela terá conseqüências desse ato, que irá arcar também sozinha, então creio que não há necessidade de julgarmos impiedosamente um ser que precisa mesmo é de amor.


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