terça-feira, 13 de setembro de 2011

Carla e o Café




Carla sempre soube que café fazia mal, agitava, tirava o sono. Mas ainda assim, desde que Carla tinha lembrança ela gostava e tomava muito café. Ela não podia em nenhuma hipótese ser considerada um ser humano normal, porque café para ela não tirava o sono, não agitava, a única coisa que acontecia era deixar um gosto estranho na boca que lhe incomodava e a empurrava a tomar mais um.
Na vida de Carla o café tinha vários significados especiais e todos a remetiam ao seu pai, falecido. Às vezes gostava de imaginar que seu pai tinha pedido aos céus para ser o seu espírito guia depois que faleceu, gostava de imaginar que era ele quem sussurrava no seu ouvido para embarcar em determinada lotação porque a próxima poderia atrasar, que sussurrava em seu ouvido segredos que as demais pessoas não escutavam, que era ele quem a protegia dos espíritos menos evoluídos que ela atraia por não ser a pessoa mais positiva do mundo. E, café a fazia lembrar do seu pai.




Era seu pai que levantava cedo, colocava a água para esquentar. Quando estava quente, mas não fervente, para não queimar o pó; acrescia três colheres de sopa bem cheias, mexia, desligava o fogo. Algumas vezes uma borra de pó subia pelo gargalo da chaleira, seu pai a chamava para ver, ela lembra de umas duas vezes que isso aconteceu. Depois ele coava em um coador de pano, adoçava e colocava na térmica para tomar o dia todo. Um dia Carla levantou e seu pai estava jogando fora um bule inteirinho de café. Foi um choque para ela, afinal ele sempre tinha ensinado que desperdiçar comida (bebida, água, qualquer coisa) era pecado, e quem pecava ia ao inferno. O coração de Carla disparou, não poderia seu pai, tão bom, ir ao inferno por causa de café. Pai, porque está jogando fora?? E ele respondeu com a calma e ternura tão característica dele: tinha acabado de passar, quando fui adoçar pulou uma perereca de dentro, não sei como aconteceu, ela devia estar no bico, porque lavei antes de arrumar o coador, e café com perereca não dá para tomar, né? Imediatamente Carla se preocupou com a perereca, pai, ela se queimou? Acho que não, ela não é burra, quando começou a esquentar a danada pulou fora, e eu perdi uma passada de café. Bom, para Carla se a perereca não tinha se queimado, não tinha nada de grave acontecendo. Anos depois quando Carla estudou sobre os anfíbios e sua respiração cutânea, que por isso eles têm a pele úmida e sensível, lembrou da perereca, sentiu um pouco mais de piedade dela e achou que para a perereca já tinha dedicado pesar suficiente, procurou ignorar a história dali em diante.




Quando Carla chegou a adolescência, naquela época em que as meninas querem aprender a cozinhar achou que era o momento de aprender a fazer café. Correu até o trabalho do e perguntou: pai, como faço café??? Ele explicou pacientemente que deveria colocar três colheres de pó e seis de açúcar e fazer como já tinha visto ele fazer várias vezes. Teve uma breve recomendação: só cuida para não derramar pó no fogão para sua mãe não ficar nervosa quando chegar, depois me chama que quero tomar também. Naquele dia Carla se sentiu especial, faria algo para seu pai. Estava só em casa, então não precisava esconder a alegria que sentia e tão pouco disfarçar o brilho no olhar. Colocou a quantia de água que já tinha visto seu pai colocar e esperou ansiosa em frente do fogão enquanto a água esquentava. Quando chegou no ponto máximo que seu coração aguentou esperar a água esquentar acrescentou seis colheres de pó, desligou o fogo, procurou no bico da chaleira para ver se tinha formado a borra, não tinha, pensou que quando tivesse a experiência de seu pai conseguiria e começou a passar. Ao terminar adoçou e provou. Estava horrível, amargo, parecia que grudava na língua. Sentiu um leve desespero! Colocou mais várias colheradas de açúcar e provou novamente. Continuava amargo. Seu coração disparou, seus olhos encheram de lágrimas, como poderia oferecer um café desses ao seu pai, não conseguia imaginar o que tinha dado tão errado, mas não tinha escolha, tinha feito alguma cagada e teria que assumir.
Correu ao trabalho do seu pai e disse para ele, tentando com uma força de mulher maravilha não chorar desesperadamente: pai, sei lá o que aconteceu, não fica doce de jeito nenhum... Seu pai olhou para ela com um olhar doce e disse: vamos lá ver. Chegou em casa e provou e falou: Meu Deus, isso é café de colombo! Ela sem entender perguntou: café de colombo? Ele respondeu: sim, forte, muito forte, café de colombo, cada gole um tombo, e deu um sorriso contido. Só então Carla conseguiu relaxar. Perguntou por que não ficava doce e seu pai, antes de responder perguntou quantas colheres de pó ela tinha colocado. Ela disse: seis, oras, como você disse e três de açúcar. Ele respondeu: três de café e seis de açúcar. Ela com um tom de quem tinha finalmente entendido tudo disse: ahhhhhhhhhhhhhh.
A partir daí iniciou uma maratona de ideias de como consertar aquele café sem ter meia dúzia de litros. Não foi fácil, nem ficou bom, mas ficou em segredo. Sua mãe não poderia saber que ela tinha usado seu fogão para fazer café e ainda feito errado, certamente ficaria irritada. Carla que já tinha paixão pelo sabor acrescentou ao gosto tradicional a sensação de cumplicidade.



3 comentários:

  1. Ah, eu nem gosto de café mas eu gostei do texto! Cada dia melhor hein ;) Abraços!

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  2. Oiie!
    Minha amiga e eu estamos amando ler seus posts, até porque estamos fazendo isso durante a aula, hahaha.

    Continue assim, são muito interessantes.

    Att: sobrinha querida =P

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  3. Fiquei com vontade de tomar o seu café com cumplicidade.

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