Existem dias que são de pura apatia.
Existem feriados que são de pura apatia.
Buscam-se palavras para escrever e não se encontra, os textos ficam pela metade, as comidas perdem o sabor, a ociosidade é preguiçosa e não criativa, não há serviço a fazer, não há programa para assistir, não há música que agrade ao ouvido, nem voz que se queira, não há barulho que arranque sorriso ou arrepio de susto, não há presença que se deseje, não há livro que agrade, não há revista que atraia. Não há nada, é como existir no vácuo, no ponto de singularidade, perde-se a noção de tempo e espaço, se atravessa o corredor em segundos, mas parecem anos, as lembranças correm, as histórias fogem como se não existissem mais. Nem solidão, nem tristeza, nem alegria, nem angústia. Nem vontade de estar só, nem vontade de estar acompanhada. O café não tem o sabor atrativo mesmo estando do jeito que gosto. A água tem gosto de nada, nem de “água”. E, de repente se percebe. Se percebe apático.
Esses momentos são raros para mim, normalmente fico angustiada porque não gosto de passar por eles, gosto de sentir, de pensar, de ter um furacão em mim, essa é minha essência, uma alma cheia de pensamentos e aventuras. É só assim que aprendi a me conhecer, e quando encontro a apatia me torno uma estranha à mim. É estranho não sentir nada. Não sinto saudade, mesmo estando longe do meu amor, não sinto falta do sorriso da Amanda mesmo sendo ele a coisa mais bela que já vi, não sinto falta do olhar doce do Henrique mesmo sendo esse o olhar que mais perto chega da minha alma, que derruba todos os muros que construí para me proteger. Não sei, ao mesmo tempo que sinto tudo isso, porque não escreveria se não sentisse. Mas é um sentir diferente, apático que não exige a presença desses fatores. E, nesse ponto já não me reconheço, sinto uma leve vontade de me embriagar, talvez fumar um abominável cigarro, ou pular de bunjee jump, qualquer coisa que volte a fazer eu ser eu mesma, com toda a minha confusão, com todos meus conflitos, com todas minhas histórias fantasiosas de uma vida, ou várias vidas perfeitas, com todas minhas dúvidas, com todas minhas angústias. Para onde foram? Que vazio estranho é esse em minha mente. Me sinto cega, vejo o mundo com suas cores normais, com seus aspectos normais, não sinto nada especial, nada me atrai. Me sinto surda porque o vento nada mais é do que uma brisa refrescante, não traz sussurros de outros continentes, não carrega confissões e declarações de amor, estalo de beijo, nada, apenas o silêncio e a brisa refrescante. Para onde foram as vozes do vento? O sol não está quente, não causa o ardume característico do horário, para onde foram os raios quentes do sol que dão uma sensação de preguiça gostosa?
Para onde foram minhas ideias? Não encontro. Procuro e só vejo escuridão, as coisas estão organizadas, limpas na minha mente. Devo certamente estar em outra cabeça, porque não reconheço essa como minha, afinal se não há bagunça, tumulto, histórias, saudade, uma lágrima querendo sair para se pendurar na ponta do sorriso, não é definitivamente, minha cabeça.
Então, feriado, não me reconheço, não vivo, estou passando apenas. Espero que essa apatia seja passageira, porque sinceramente me prefiro com energia, com intensa alegrias, ou tristezas. Com qualquer coisa, desde que seja intensa, desde que haja, qualquer mesmo, que me remeta à pessoa na qual me reconheço.
Hoje senti falta de mim, das minhas esquisitices, das manias, das neuroses, das dúvidas, dos medos, da saudade, das histórias, da minha essência. Hoje me sinto sem alma, pois há em mim uma apatia.




Nossa, sua apatia não foi tão ruim, gerou um dos seus melhores textos sobre um sentimento, ou um não sentimento. Você conseguiu passar bem a angustia de uma forma estética da escrita bem interessante, espero que você já esteja melhor.
ResponderExcluirEu prefiro o ócio criativo nos feriados... hehehehe bj jaque
ResponderExcluiraiii, adorei, eu me sinto exatamente assim de vez em quando ='( é uma tristeza não triste, uma coisa muito louca e desesperadora, gostei mto do texto, bastante expressivo, parabéns!
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