Carla cansou de roer as unhas, comer chocolate, brigar sem motivo, chorar sem entender, dormir descontroladamente e resolveu procurar ajuda. PSIQUIATRA. Porque ela não tinha medo de admitir era louca. Louca, completamente insana, totalmente inadequada nesse mundo de valores deturpados onde se pesa totalmente o ter ao invés de ser.
Carla buscou ajuda para tentar se enquadrar, viver de maneira mais ignorante e hipócrita como a maioria das pessoas com quem convive e, como elas, fingir publicamente uma felicidade intensa quando na verdade já estão completamente mortas por dentro.
Isso, Carla procurou o médico para morrer por dentro para continuar vivendo por fora.
Primeira consulta: ele perguntou o que estava acontecendo. Carla ficou pensativa... Acontecendo..... Nada nunca acontecia em sua vida, tudo ela tinha que correr atrás e conquistar..... Respondeu simplesmente: Nada, me sinto um pouco triste, por vezes tenho vontade de chorar sem motivos, sinto muit.....
Ele interrompeu e disse: fluoxetina vai te ajudar, toma um comprimido pela manhã, logo após o café. Mais alguma coisa.
Carla meio decepcionada, tinha pensado que seria como uma terapia, que iria falar, chorar, gastar caixas de lenço, contar a infância triste e amargurada, como isso ainda a acorrentava e a mantinha prisioneira; foi buscar o remédio. Começou a tomar e realmente se sentiu um pouco melhor.
Na próxima consulta Carla tinha decidido, iria falar, precisava falar. Mas, mais rápido do que a primeira vez Carla estava com a receita em mãos para mais quatro meses. Com indignação trocou de médico.
Primeira consulta, de novo. O médico perguntou sobre as consultas anteriores, Carla respondeu tranquilamente, mas a primeira pergunta de cunho pessoal a desconsertou: Com quem você mora???
Com quem moro??? Ninguém. Ninguém??? Que triste, você deve ser tão amarga, solitária não mora com ninguém, se você morrer a noite será encontrada morta apenas quando no seu trabalho acharem estranho você faltar sem dar notícias por uns dois dias. Se for no final de semana, vixi, já estará em estado adiantado de decomposição. Foi o monólogo que passou rapidamente pela sua cabeça.
Ele chamou Carla à realidade, enfatizando a pergunta. Carla respondeu apenas “eu mora só”, sem todas as angústias que lhe passaram pela cabeça. Depois disso, ela não lembrava ao certo como decorreu a consulta, tinha lembrança apenas dela estar exteriorizando palavras enquanto ele olhava e ouvia com atenção, com certeza deveria ser alguma múltipla personalidade agindo porque Carla só conseguia pensar em “com quem você mora?” e o que isso representava.
Sua personalidade múltipla deveria estar deprimida, porque ele aumentou a dose da fluoxetina, enquanto Carla conseguia apenas pensar.....
Morar só representava tantas coisas, não apenas ruins, mas muitas coisas boas que Carla percebeu que não usufruía. Morar só representa ter autonomia financeira, representa independência, que vem coladinha com responsabilidade e isso bastou para ver o quanto Carla era infantil e imatura, aprisionada por correntes apertadas de um passado que existia presente em sua mente.
Quando planejava viajar ficava com receio de comunicar sua mãe e ter que ouvir dela comentários de como não se deve gastar, isso enchia o saco e fazia Carla se sentir cometendo um erro. Lembrou que da última vez que viajou se sentiu pressionada por si mesma a ligar avisando que estava saindo e que estava tudo bem. É claro, existe uma natural preocupação por ser família, mas não obrigação, como era a maneira que se sentia.
Continuou sua reflexão, há muito tempo Carla sentia vontade de mudar de cidade e estava protelando a decisão. Por que? Simples, porque seria uma ofensa pessoal à sua mãe ela querer viver em outra cidade, com melhores oportunidades. Quanta pressão que ela permitia ter, não era sem motivos que no fim do dia ela sentia que o peso do mundo estava em seus ombros. Não se permitia decidir por si, vivia cobrando um comportamento agradável aos outros e não a sua felicidade.
Foi com um sorriso no rosto que resolveu se despir da obrigação de ser perfeita, agradável, boa, íntegra, correta, responsável para cultivar valores que tenham importância para ela.
Resolveu ser pefeita, agradável, boa, íntegra, correta, responsável e ter valores importantes conforme seu conceito. Assim, descobriu que o psiquiatra realmente ajudava, não só com medicamentos, mas fazendo a pergunta certa, mesmo que sem querer. E que não precisava morrer por dentro, era possível ser feliz na íntegra porque os valores que o mundo não tem, não podem ter maior importância do que se é na essência.



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